A Música no Espaço

A música desperta na alma impressões de arte e de beleza que são o júbilo e a recompensa dos espíritos puros, uma participação na vida divina em seus deleites e seus êxtases.

A música, melhor do que a palavra, representa o movimento, que é uma das leis da vida; por isso ela é a própria voz do mundo superior.

É necessária a beleza suprema da forma para se exprimir os esplendores da obra universal. Nem a poesia, nem a música, dissemos, suportam a mediocridade. Entretanto, apesar da carência estética dos tempos atuais, é preciso reconhecer e louvar os esforços de alguns autores que, em suas tentativas, aproximaram-se da perfeição e conseguiram realizar obras onde passa um sopro, uma radiação da soberana beleza. Através da ópera, particularmente, conseguiram agitar nas almas a fibra dos entusiasmos generosos.

Isto porque, para conceber, para produzir obras geniais, capazes de elevar as inteligências até o máximo do pensamento, até o ideal de beleza perfeita, é necessário primeiramente criar-se a si mesmo, edificar sua própria personalidade e torná-la suscetível de provar, de compreender os esplendores da vida superior e a harmonia eterna do mundo.

Que forças, que luzes, que consolações, que esperanças podemos passar às outras almas se não temos em nós próprios senão obscuridade, dúvida, incerteza e fraqueza? O que se poderia esperar de espíritos céticos, fechados a qualquer impressão elevada, surdos a quaisquer vozes, a quaisquer ecos do além? A miséria estética de nossa época explica-se pela impotência da alma contemporânea em se criar uma fé esclarecida, uma mais ampla e mais alta concepção da beleza universal.

Por conseguinte, devem-se apreciar as exceções que são produzidas e os impulsos dos raros autores que se esforçam por conduzir a opinião às regiões do ideal.

Porém, à medida que um novo ideal desperta e que os focos do espiritualismo se acendem em todos os pontos do globo, ver-se-á eclodir e desenvolver-se nas almas um reflexo mais poderoso dos esplendores da vida invisível tal como a revelam os ensinamentos de nossos amigos do espaço. E este será o sinal de uma floração de obras, o ponto de partida para uma era artística que ultrapassará em grandeza e em riqueza a obra dos séculos precedentes.

Sem dúvida o espetáculo do mundo terrestre e da vida humana, com seus contrastes violentos, oferecem-nos diversidade suficiente de quadros, de imagens, de cenas - amores e ódios, paixões e dores -, capazes de inspirar obras fortes, tais como as que o passado nos legou.

Porém o que são esses temas, por mais ricos que sejam, comparados ao imenso panorama que desvenda aos nossos olhos a revelação espírita e suas descrições da vida nos espaços? O que se tornam as peripécias de uma existência humana ao lado dos amplos horizontes do destino da alma em sua ascensão através do ciclo das idades dos mundos? E as alegrias, as provas, as quedas e os reerguimentos, a descida no abismo e as tentativas de vôo para a luz, os sacrifícios que são uma reparação, um resgate, as missões redentoras, a participação crescente na obra divina? Quem falará das poderosas harmonias do universo, gigantesca harpa vibrando sob o pensamento de Deus, do canto dos mundos, do ritmo eterno que embala a gênese dos astros e das humanidades? Ou, então, da lenta elaboração, da dolorosa gestação da consciência através dos estágios inferiores, da laboriosa construção de uma individualidade, de um ser moral! Quem falará da conquista da vida, sempre mais ampla, mais plena, mais serena, mais iluminada pelas irradiações do alto; a caminhada de cume em cume à procura da felicidade, do poder e do puro amor! Esses vastos assuntos encontram-se ao alcance de todos. Em todo poeta, artista, escritor, há insuspeitáveis germes de mediunidade que não pedem nada a não ser eclodir; através deles o operário do pensamento entra em comunicação com a fonte inesgotável e recebe sua parcela de revelação. Essa revelação de estética apropriada à sua natureza, a seu tipo de talento, ele tem por missão expressá-la sob formas que farão penetrar na alma das multidões uma vibração das forças divinas, uma radiação da luz eterna.

É da comunhão freqüente e consciente com o mundo dos espíritos que os gênios do futuro extrairão os elementos para suas obras. Atualmente a penetração nos segredos de sua dupla vida vem oferecer ao homem auxílio e luzes que as religiões enfraquecidas não mais poderiam lhe dar. Em todos os domínios a idéia espírita vai fecundar o pensamento que trabalha.

O canto e a música em sua íntima união podem produzir a mais alta impressão. Quando ela é sustentada por nobres palavras a harmonia musical pode elevar as almas às regiões celestes. É o que se realiza com a música religiosa, com o canto sacro.

O cântico produz uma dilatação salutar da alma, uma emissão fluídica que facilita a ação das forças invisíveis. Não há cerimônia religiosa verdadeiramente eficaz e completa sem o cântico. Quando a voz pura das crianças e dos jovens ressoa pela abóbada dos templos, desprende-se como que uma sensação de suavidade angélica.

Porém, unida a palavras malsãs, a música não é mais do que um instrumento de perversão, um veículo de torpeza que precipita a alma nas baixas sensualidades, e aí encontra-se uma das causas da corrupção dos costumes da época atual.

O fenômeno sonoro desenvolve-se de círculo em círculo, de esfera em esfera, e amplia-se até o infinito. Ele leva a alma, em suas grandes ondas, sempre mais longe, sempre mais lato, no mundo do ideal, e nela desperta sensações tão delicadas quanto profundas, que a preparam para os júbilos e os êxtases da vida superior.

O poder misterioso e soberano estende-se sobre todos os seres, sobre toda a natureza. Com efeito, a lei das vibrações harmônicas rege toda a vida universal, todas as formas de arte, todas as criações do pensamento. Ela introduz equilíbrio e ritmo em todas as coisas. Ela influi até sobre a saúde física por sua ação sobre os fluidos humanos. Sabe-se que Saul, em suas crises nervosas, chamava Davi, que através dos sons de sua harpa acalmava a irritação do monarca. Em todos os tempos, e ainda nos dias atuais, a arte musical foi aplicada à terapêutica, e com resultado. Poder-se-iam multiplicar os exemplos.

A harpa, através de seus sons eólios, dissipa nossos pesares, acalma nossas dores e embala-nos deliciosamente a alma. Nossos pais, os celtas, consideravam-na como elementos indispensável à vida intelectual.

O código de Hoël diz, com efeito: "Há três coisas inalienáveis em um homem livre: o livro, a harpa e a espada." O maior dos bardos, Taliesin, desaparece misteriosamente, porém por longo tempo sua harpa é vista flutuando sobre as águas do lago encantado. E os ecos da floresta de Broceliande ressoam ainda, a certas horas, vibrações enfraquecidas da harpa de Merlin.

Nossos pais viam na música o ensinamento estético por excelência, o meio mais seguro de elevar o pensamento às alturas sublimes, onde reside o talento inspirador. A harpa representava importante papel nas evocações dos recintos sagrados e nas relações dos celtas com o povo invisível.

A voz humana possui também, quando é verdadeiramente bela, entonações de uma flexibilidade e de uma variedade que a tornam superior a todos os instrumentos. Ainda melhor do que isto, ela pode expressar todos os estados de espírito, todas as sensações da alegria e da dor, desde a invocação de amor até as entonações mais trágicas do desespero. É por isso que a introdução dos coros na música orquestrada e na sinfonia enriqueceu a arte de um elemento de encanto e de beleza.

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Quase todos os célebres compositores gozam das faculdades mediúnicas que lhes permitem receber as inspirações do além, traduzir, sob a forma de seu próprio talento, as grandiosas concepções da eterna harmonia.

Dentre eles, os mais notáveis parecem-nos ser Beethoven, Berlioz e Wagner.

Beethoven deve ser considerado como o verdadeiro criador da sinfonia, e sua frase, por sua amplitude e beleza, representa a ação musical completa. Sob esse ponto de vista, seu espírito domina e dominará ainda por muito tempo a música moderna. Afirmam-nos que recentemente ele ditou a certo médium um hino espírita destinado às sessões de evocação e que em breve será divulgado.

Também Berlioz foi um sinfonista de grande envergadura; dentre os compositores franceses, não há outro mais difícil de ser imitado, devido a seu enorme talento e prodigiosa virtuosidade. Em sua música ardente, apaixonada, pitoresca, a intenção e a execução se combinam; ela possui o relevo e a força da região alpina, onde o autor nasceu. Exprime ora o esplendor dos cumes ora o horror dos abismos. Nela encontramos a voz das torrentes, o murmúrio da floresta, todas as harmonias da montanha em sua unidade e variedade impressionantes.

Jamais esquecerei a profunda impressão em mim produzida pela primeira audição de A Danação do Fausto. Eu não tinha mais do que 20 anos de idade, e foi para mim, graças à sinfonia, a revelação de um mundo desconhecido, deslumbrante de riquezas e de maravilhas. Berlioz foi genial demais para ser bem compreendido por seus contemporâneos; como ocorre com quase todos os inovadores, foi apenas após sua morte que o público começou a apreciar o talento lírico dele.

Quanto a Richard Wagner, sua colossal obra é inteiramente impregnada de uma espiritualidade densa e pesada, que se limita de perto com o materialismo, como todo talento alemão. Porém, às vezes, dessa massa um pouco confusa, e freqüentemente até mesmo vulgar e banal, brotam jorros musicais que alcançam os mais altos cumes.

Wagner toma bastante de seus predecessores, porém torna seu o que lhes toma, revestindo-o de vida original e pessoal.

Nele, infelizmente, o fundo é inferior à forma, e sob esse aspecto sua obra carece de equilíbrio e de precisão. Suas imagens e temas são terrestres; quando quer povoar o espaço, e ele o faz sempre através de deuses de máscaras trágicas e humanas demais, através de criaturas semi-materiais de capacete e armadas, cavalgando sobre nuvens negras à procura de sangrentas batalhas. São exceções apenas duas de suas obras: Tristão e Isolda e Parsifal, tomadas das lendas célticas e cristãs.

Sua música, no conjunto, é sensual e não mantém os espíritos nas altas regiões do sonho e da beleza. Isto porque Richard Wagner trabalhou apenas para o teatro, e na ópera, como já vimos, a música permanece presa à palavra e encontra-se aí, às vezes, uma causa de fraqueza e de inferioridade.

Nesse gênero lírico, para se produzir a mais forte impressão, é preciso que a forma e o pensamento se equilibrem, se completem e permaneçam equivalentes. A forma soberba associada a um pensamento pobre dissipa-se rapidamente e não deixa senão uma impressão indecisa, uma vaga recordação.

Entretanto, apesar de seus defeitos e de suas lacunas, a obra de Wagner tem lugar fixo dentre as grandes criações musicais. Ela nos mostra uma vez mais que a arte é de todos os tempos, de todos os países, e não tem pátria.

Porém, tanto em música como em qualquer outra coisa, a Franca revelou-se um país de equilíbrio: o gosto, a clareza, a medida são para nós as qualidades essenciais da arte.

Entre os murmúrios melodiosos, os arrulhos quase femininos da música italiana e as máscaras e possantes sonoridades da música alemã, a música francesa toma o meio e une as duas escolas opostas numa síntese feita de encanto, força e beleza.

As obras de Beethoven, Berlioz e Wagner parecem resumir a mais alta inspiração musical de nosso tempo. Porém o futuro verá surgirem outros homens mais conscientes do mundo invisível que nos circunda, mais bem dotados das faculdades mestras que permitem a comunicação com ele.

Eles dotarão a humanidade de tesouros de arte e de poesia, cujas riqueza e dimensão não poderíamos medir no momento, e que se tornarão para ela uma fonte inesgotável de júbilo, de verdade, de beleza.

O pensamento, a inteligência são portas da mesma harmonia universal que a música, e é por isso que esta, sozinha, pode exprimir o que o pensamento, a inteligência concebem de mais alto e mais sublime.

Pois a vibração sonora não é senão uma manifestação da vida universal.

É por isso que ela desperta um eco nos recônditos mais secretos da alma; ela reanima em si como que uma vaga recordação dos céus profundos onde nasceu, viveu e reviverá!

Capítulo 6 do Livro "O Espiritismo na Arte" - Léon Denis