Ao pretendermos apontar a música como instrumento auxiliar no processo de regeneração da humanidade, e não como mero acessório descartável, precisamos buscar seu papel também na visão holística de educação.
O homem educado integralmente não se pode abster do sentido artístico-musical de seu desenvolvimento, ou seja, deve buscar caminhos que lhe permitam atender a todas as suas potencialidades[1], a saber: a inteligência emocional, a espiritual, os estilos cognitivos, as capacidades intuitivas, artísticas, criativas etc. O que se precisa é de uma mudança de paradigma, e esse paradigma tem estado presente na história da educação, sempre de maneira marginal, sendo conhecido atualmente como educação holística[2].
A cultura hierarquizada e segmentada que recebemos no decorrer de nossa formação “pelas encarnações afora”, instigam-nos a manter o mesmo padrão particionado de construção do saber, no sentido holístico. Segundo a concepção de Yus, vemos:
“O que é educação integral? (...) A tradição cartesiana não só nos mostrou a importância de separar dimensões humanas (mente-emoção, corpo-espírito), mas também de hierarquizá-la, favorecendo algumas (por exemplo, mente, corpo) e reprimindo outras por considerá-las primitivas (exemplo: emoção), ou por serem imaginárias ou irracionais (exemplo: espírito). Por isso, não nos causa estranheza que a idéia de educação integral seja exclusivamente a de conhecimentos, habilidades, valores morais, deixando de lado outras potencialidades, talvez mais determinantes, como as emoções e a espiritualidade, possivelmente por uma equivocada contradição laicismo e espiritualidade[3]”.
O estarmos discutindo a música numa visão espírita não nos priva de análises no campo da educação integral, uma vez que é fator determinante para nossa evolução. Lançamos, por isso, algumas questões: Em que tipo de escola estudamos? Em que sociedade vivemos e sob que regime político? A que elementos culturais estamos arraigados? Em que tipo de ambiente nos vemos inseridos? Com cautela e “caridade”, poderíamos mesmo refletir se o próprio processo de desenvolvimento pedagógico-espírita a que estamos filiados na nossa instituição promove ou favorece de forma satisfatória nosso avanço cultural dentro dos preceitos kardequianos.
Colocamos esta questão, intimamente ligada ao nosso progresso holístico-educacional, pois estamos convictos da precisão e da magnitude da Doutrina Espírita, mas e o movimento (que “nós” fazemos)? E a diversidade de atividades desenvolvidas? E as divergências improdutivas? E os diferentes modelos administrativos (as teias e sistemas substituídos por pirâmides de diversos formatos)? E as contingências cargo/poder? E a proposta de unificação que vem chegando firme e sábia, porém encontrando barreiras igualmente difíceis de transpor? E os inimigos de Kardec[4]?
Ainda sobre a questão do termo “holístico”, ressaltamos a situação de se ter atrelado a ele propostas contraculturais, reducionistas ou equivocadas de caráter esotérico, por esse motivo pode ocorrer um restrito entendimento do seu verdadeiro e amplo significado educativo. “Educação Holística“ foi um termo proposto pelo canadense J. Miller, em 1996, que asseverava ser este um processo de interconexão do processo ensino-aprendizagem; e logo depois pelo americano R. Miller[5] ao considerar as mais variadas facetas da experiência humana: aspectos físicos, emocionais, intelectivos, racionais, vocacionais, de cidadania, sociais, estéticos, criativos, artísticos, intuitivos, espirituais, educacionais... Assevera ainda que ela está firmada na experiência vital, não em habilidades básicas rigorosamente definidas; e que, enquanto a educação convencional cuida apenas de reproduzir, a holística reconhece no indivíduo a capacidade de mudar, ampliar e dar novo foco ao seu processo de crescimento. Para ele a Educação Holística é um empreendimento fundamental.
Embora o termo seja recente a idéia precede e muito. Comenius[6], considerado por muitos o pai da pedagogia, ao qual Piaget chamava seu antecessor, já defendia os ideais de educação holística. E também Pestalozzi[7] e Rivail[8] defendiam que o sujeito-educando deveria ser visto e formado integralmente[9], levando tais conceitos às suas respectivas práxis em Yverdon.Evidentemente, e sem qualquer esforço, podemos perceber a Educação Integral ou Holística como arquétipo para o espírita, que deve buscar o pleno desenvolvimento de suas potencialidades e em todos os campos.
R. Miller observa que o holismo é, em última instância, uma rebelião do espírito humano, do inconsciente profundo, que se revela acima de tudo na globalidade. Nesse contexto, sem dúvida, se insere a questão da música como cooperadora do processo de educação integral que é essa revolução das sensibilidades ou reencantamento do mundo (...) é a chave de todas as crises que começamos a enfrentar no início do século XXI[10].
Temos em Platão e Aristóteles a primeira teorização da finalidade artística na concepção pedagógica. Este coloca a música, entre outras expressões artísticas, como disciplinas fundamentais na formação do corpo e da alma, isto é, na constituição do caráter do indivíduo. Haja vista ser para Platão[11] a gramática, a estratégia, a aritmética, a geometria e a astronomia formas de arte, eram todas indispensáveis na formação os guerreiros e filósofos, a estes acrescentando a arte dialética. Observemos as colocações de Aristóteles[12] na Arte Poética: A música não deve ser praticada por um só benefício que dela pode derivar, mas por usos múltiplos, já que pode servir para a educação, para proporcionar a catarse e, em terceiro lugar, para o repouso da alma e a suspensão de suas fadigas[13].
Citamos, ainda, a concepção pedagógica da arte em Kant ao dizer que a arte é produzir o sentimento do sublime, isto é, a elevação e o arrebatamento de nosso espírito diante da beleza.















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